21.12.10

Escolhendo seu parceiro de Trip! (Rocha e Gelo)

Aloha galera!

Aproveitando o clima de viagem, vou postar aqui uma matéria que foi ao ar há algum tempo atrás no Rocha e Gelo

Escolhendo seu parceiro de Trip!
Atila Barros

Depois de passar um tempinho fora curtindo as águas quentes e azuis do Caribe e as montanhas da Venezuela, estava na hora de falar de algo muito importante para caminhantes, aventureiros e montanhistas: a escolha de seu parceiro de Trip.

Nas horas que se seguiram entre o vôo de Caracas para São Paulo, pensei muito no quanto tinha viajando com pessoas maravilhosas e o quanto já me desentendi com grandes amigos por assuntos que hoje me fazem rir e pensar que não valeu a pena.

Difícil imaginar passar três ou quatros dias trancado dentro de uma barraca sem poder sair nem um pouquinho à noite por conta do mal tempo. Como passar o tempo ao lado de um cara que ronca a noite toda, já está dias sem banho e não fala a mesma língua que você (Você curte Iron Maiden e ele toca seu grupo de Axé preferido a toda altura em seu Iphone)? Como sobreviver a isso sem perder o amigo e a cabeça?

Situações que podem ser evitadas com um pouco de paciência e jogo de cintura ainda são fáceis de resolver, mas quando nem mesmo toda paciência de “Buda” consegue acalmar um companheiro descontrolado querendo ir embora da montanha depois de uma noite difícil de aclimatação?

Experiências do tipo: Dinheiro tá curto, vamos comer no Hot-Dog (Pancho) mais sujo de Córdoba para economizar cada centavo de dólar, e seu amigo quer se entupir de carne bovina de primeira em uma churrascaria próxima a seu hotel. Como sair dessa sem deixar o cara sozinho? Deixando-o ir sozinho é claro. Só que numa dessa você pode desencadear a discórdia e detonar toda viagem.

Situações que colocam o espírito de aventura em jogo também podem colocar amigos em campos diferentes do jogo. Você quer ficar longe das compras e curtir o que há de mais rústico na cidade; seu amigo está com um gordo limite no cartão de crédito e quer comprar toda loja de material esportivo ou aquela camisa de grife que você pouco importa de estar usando. Não tem coisa pior do que esperar do lado de fora de uma loja enquanto existem mil coisas para se fazer. É preciso muita paciência para não se indispor (Passamos por algo parecido agora em Aruba, vontade não faltou de deixar todo mundo a pé).

Melhores amigos podem se tornar piores inimigos por conta de um relógio que toca fora do horário, roupa suja espalhada em seu material de cozinha, ou até mesmo se o seu grande amigo chega depois de uma balada meio alto de Tequila às cinco da manha e entra no quarto do hotel cantando “I love to hate you” do Eraser (Estranho não?), dá vontade de matar o cara, não só porque a musica é horrível, mas porque quem vai levantar cedo para um dia difícil não está nem um pouco receptivo aos seus suspeitos dons musicais.

Situações como essa se multiplicam entre amigos que montam seus grupos e partem por esse mundo afora. Porém, quando a coisa fica feia, ou melhor dizendo, quando a paciência começa a chegar ao limite, a vontade que da é de pegar a mochila e voltar para casa no primeiro pau-de-arara.

Depois de duas semanas de viagem, se o grupo não estiver bem entrosado, tudo pode ser motivo de uma grande briga. Um exemplo claro disso foi quando certa vez na fronteira do Peru com o Chile em 2006 fui parar na imigração. Uma grande amiga perdeu a paciência com um agente da imigração peruana porque desconfiou de seus documentos e disse que os mesmos estavam velhos. Todos que saem muito do país e se aventuram pelas fronteiras da América do Sul sabem que estamos sujeitos a esse tipo de atitude. Nada que um pouco de conversa não resolva. Com a paciência da agente de imigração no limite, o que restou foi ser escoltado por policias até uma área restrita. Depois de uma longa conversa, e com muita paciência, consegui que fôssemos liberados e seguimos viagem. Tudo isso poderia ser evitado se antes de qualquer coisa tivéssemos tido uma boa conversa entre o grupo mostrando a cada um como funcionam as leis nas fronteiras.

Como evitar esses contratempos e escolher nossos parceiros de Trip?
Algumas dicas básicas podem salvar suas férias ou seu projeto de escalada.

- Quando for montar sua equipe, Trip adventure ou sua excursão para “Praia de Ramos”, pense bem no que você está se metendo, tente se avaliar. Veja se é capaz de conviver em grupo com opiniões adversas e às vezes perturbadoras.

- Pessoas experientes têm menos chances de te dar dor de cabeça. Quanto mais experiência no que você propõe à sua Trip, melhor o resultado final. Procure equilibrar o grupo.

- Nem sempre seu melhor amigo de escola é seu melhor parceiro de escalada ou viagem. Liberdade demais entre pessoas de um mesmo grupo podem comprometer as decisões. Fica difícil argumentar com quem já te derrotou em um campeonato de River Raid no velho Atari ou trocava figurinhas do campeonato Brasileiro durante a hora do recreio na escola.

- Respeito é tudo quando uma decisão deve ser tomada. Lembre sempre que liderança não é sinônimo de autoritarismo.

- Antes de escolher seu parceiro de viagem, conversem bastante, tracem metas e já saiam de casa com pelo menos mais da metade do roteiro definido. Isso diminui muito o número de imprevistos durante a viagem.

- Grandes poderes exigem grandes responsabilidades (Essa é do Peter Parker!). Se você já é um Máster of Stone e pretende levar seu melhor amigo de trabalho, namorada ou irmão mais novo para montanha, lembre-se que eles são de sua responsabilidade e que agora você é como um pai para eles, isso até na hora de pagar as contas e conferir a bagagem de cada um (Que roubada!), a não ser que sua namorada seja uma Steph Davis, a esposa do Dean Potter (Exagero, hoje temos ótimas escaladoras e grandes namoradas que mandam super bem no esporte).

O mundo é cheio de diferenças. Culturas e tradições somam-se ao caráter de cada um de nós. Não é possível ser perfeito em tudo, e não existem duas pessoas completamente iguais no mundo. É preciso saber conviver com essas diferenças e tentar fazer prevalecer o bom senso e a tolerância quando o tema é coletividade.

Resumindo: some grandes amigos de montanha, experiência em escalada e aptidões musicais que não sejam um “tam-tam e um cavaquinho” e tenha um grande grupo ou uma super e tranqüila trip.

Força sempre e boas escaladas!
Atila Barros

É isso aí galera, agradeço a contribuição de Atila Barros!
Abraços e boas escaladas!