5.6.13

Vivendo na Serra do Cipó

Ué! Já é quarta-feira e a coluna da Nathalie ainda não entrou no ar?

O que houve?
Falta organização?
Falta vontade?

Nath e o Rio Cipó

Não, galera! Lembra que a Nathalie mora na Serra do Cipó? Pois é. Plena quinta-feira de feriado, meu notebook resolve não carregar nada. Como que manda coluna pro Raman, se nem começavam a aparecer aquelas letrinhas na tela preta? Iniciar o Windows, só nos meus melhores sonhos. Conectar internet então... vish! Solução: procurar conserto em Lagoa Santa (a 60km) ou BH (100km) na segunda-feira (4 dias sem computador! OK, respira fundo). Esquece que existe mundo lá fora e faz o que puder, tentando não morrer de tédio. Baita lição.
Conversando (e me desculpando!) com o Raman, tivemos a ideia de dar pra vocês esse panorama de como é levar a vida (linda e boa) aqui com todos os percalços (que a gente supera).
Como o notebook é minha principal ferramenta de trabalho e contato com o mundo aí fora, vou começar falando do vil metal.

Chapeletas em uma via aberta no corte da antiga Pedreira (G1 - Zuma)

Pra trabalhar na Serra do Cipó, ou você tem um negócio próprio que te rende pelo menos a subsistência ou então vive do turismo, que é escasso nessa época (por incrível que pareça, muita gente não tem noção do potencial de escalada e trekking que isso aqui tem). Os escaladores que vem pra cá em determinadas épocas (ou mesmo nos finais de semana) raramente chegam a ver a Serra no seu cotidiano de ruas vazias, pouca gente circulando e muitos comércios fechados por só abrirem das 17h de sexta até as 17h de domingo. São poucos os moradores locais que botam a cara no fervo dos finais de semana. Quem pretende viver no Cipó tem que se apaixonar pelo sossego quase tedioso dos dias de semana, quando não há turistas nem a iluminação de todas as lojas abertas. Se a pessoa apenas “suportar” essa calmaria e precisar do ritmo sufocante de cidade grande, já adianto que é bem capaz de não aguentar um trimestre de vida "cipoeira", ou mesmo um mês que não tenha cara de férias e sim de vida comum.

Escalador em via da Sala da Jutiça, visto do mirante do G3. Foto: GEAN - Resende/RJ

Quando me mudei de Natal/RN pra cá, algumas pessoas me disseram “você está realizando um sonho que eu tenho” – mas completando quatro meses aqui e sem a pretensão de bancar a heroína dos sonhos impossíveis, tenho a dizer que viver de escalada aqui é pra poucos. Não para heróis, mas para quem tem alguma grana guardada ou que não depende exclusivamente do movimento da Serra pra viver – por isso o notebook é tão desejável, pelo menos pra ouvir música! Não há lan houses aqui, nem grandes conexões com o mundo. O sinal de celular é fraco e por vezes nem o modem 3G conecta.
- Mas Nath, você mora ilhada?!
- Não, moro a 100km de Belo Horizonte, a capital de Minas Gerais, na Serra do Cipó, a Meca da escalada no Brasil, destino também pra quem curte trekkings longos, pedal, slackline (há um highline montado nos dois mirantes do G3, sob a responsabilidade dos meninos da Pé na Fita), além de paisagens lindas, exemplares de pôr-do-sol que são um bálsamo pro espírito de qualquer um (e um prato cheio para os fotógrafos). Além de uma energia muito forte alimentada pelo tanto de cristal de quartzo que há nessa terra, com os quais você por vezes topa andando nas trilhas.

Pôr do sol da janela da minha sala.

Morar aqui é maravilhoso, principalmente se você entender que pode trabalhar pouco porque não precisa de muito pra viver. Não há transporte público nem cinemas, tampouco alternativas de rango no meio da madrugada ou shows de gente badalada. Jogo de futebol é no restaurante do Zé Rosa onde a galera se reúne e se o Galo ganha rola festa na rua com umas 40 pessoas... rs. Dá pra economizar, juntar um dinheiro, andar no belíssimo Cerrado, conhecer cachoeiras dignas de qualquer Chapada dos Veadeiros, apreciar a natureza, escalar até ferir a pele dos dedos e simplesmente entender a vida de outra forma. É bom, faz bem pra alma. Cipó é pra quem já consegue desapegar do corre-corre que a gente "acha" que tem que encarar pra se sentir vivo e produtivo. Não é bem assim.

Vista alcançada depois de um trekking de 16km pelo alto do PARNA Cipó. Cachoeira da Farofa de cima.
Programa de meio de semana para quem mora aqui.

Ah, acho que ainda não comentei que aqui é terra de escravos. Há uma comunidade quilombola e fazendas remanescentes da época em que nossos irmãos negros ainda eram os responsáveis por manter a terra, as lavouras e erguer as paredes que deram abrigo a quem descobriu essa joia encrustada nas montanhas mineiras. Quem gosta de história também tem o Cipó como uma referência segura num olhar ao passado, tudo bem pertinho da cidade (e você nem desconfiava, né?)

Acima da porta da senzala quase em ruínas da Fazenda Cipó, a marca dos dedos dos escravos que construiram o que viria a ser uma "casa" para eles.

Desculpem ter interrompido o cronograma de ir apresentando a Serra, mas não podia perder esse gancho!
Até a próxima semana se tudo conspirar.